Quando um paciente se senta à minha frente e recebe o diagnóstico de um tumor na região da cabeça ou do pescoço, a primeira imagem que costuma vir à mente é a do bisturi. Existe uma ideia quase instintiva de que “tirar o problema” resolve tudo. Mas a medicina moderna, especialmente na oncologia de cabeça e pescoço, deixou de ser um ato solitário do cirurgião para se tornar uma orquestra. A grande virada de jogo para aumentar as chances de cura não está apenas na precisão da lâmina, mas na conversa íntima entre a cirurgia e a radioterapia. Imagine que o câncer é como uma raiz de erva-daninha em um jardim complexo. O cirurgião entra para remover a parte visível e mais densa dessa raiz.
No entanto, em casos de carcinomas epidermoides — aquele tipo de tumor que nasce nas células que revestem a boca, a garganta ou a laringe —, as células malignas podem ser microscópicas e “viajar” por caminhos que o olho humano, mesmo com auxílio de lupas, não alcança totalmente. É aqui que a radioterapia entra como uma varredura de alta precisão. O papel de cada um no tabuleiro O cirurgião de cabeça e pescoço é, antes de tudo, um preservador de funções. Nossa missão é remover a doença, mas mantendo a capacidade do paciente de falar, engolir e respirar. Quando operamos um câncer de laringe ou de glândula salivar, o objetivo é a margem livre (garantir que não sobrou nada visível). A radioterapia, por sua vez, utiliza feixes de radiação para destruir o que sobrou ou para tratar áreas onde o risco de retorno é alto.
Essa sinergia é o que chamamos de tratamento adjuvante. Em alguns cenários, a radiação é feita antes da cirurgia para diminuir o tamanho do tumor, mas o mais comum é que ela venha depois, como uma “limpeza fina” do terreno. Um exemplo prático da rotina clínica Pense no caso de um tumor de boca que já atingiu um tamanho considerável. Se optarmos apenas pela cirurgia, o risco de uma célula ter escapado para os gânglios do pescoço (as famosas ínguas) é real. Ao associar a radioterapia logo após a cicatrização, conseguimos reduzir drasticamente a chance de o tumor voltar no mesmo lugar. Muitas vezes, incluímos também a quimioterapia nesse combo para potencializar o efeito da radiação. É um tratamento intenso? Sim. Mas é essa agressividade controlada que redefine o prognóstico de casos que, há vinte anos, seriam considerados terminais.
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O que acontece no “pós-guerra”? Não vou dourar a pílula: o tratamento combinado exige resiliência. A radioterapia na região do pescoço pode trazer efeitos colaterais como a xerostomia (boca seca), alterações no paladar ou dificuldade momentânea para engolir (disfagia). É por isso que o monitoramento não acaba na alta hospitalar. O acompanhamento envolve: Exames de imagem frequentes (tomografia e ressonância) para vigiar cada centímetro. Endoscopias das vias aéreas superiores para checar a mucosa. Suporte fonoaudiológico para reabilitar a voz e a deglutição. O fator tempo: o diagnóstico precoce Apesar de toda a tecnologia, de robôs cirúrgicos e de máquinas de radiação que parecem saídas de filmes de ficção científica, nada substitui o diagnóstico precoce.